TESE DE MESTRADO DEFENDIDA NA

UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO COM O TÍTULO:

 

EDUCAÇÃO E MODERNIDADE
O pensamento educacional dos Jesuítas, John Locke e Jean-Jacques Rousseau na era das Ciências e da Filosofia Moderna

 

4º Capítulo: O "Racionalismo ético" de Jean-Jacques Rousseau e a educação

 

(Fonte: http://www.geocities.com/Athens/Ithaca/9565/tese/rousseau.html) ou (http://www.bonato.kit.net/)

 

Sergio Luiz Bonato

O historiador Lourenço Luzuriaga, na Introdução de sua obra História da educação e da pedagogia, nos adverte:

... os ideais educacionais não são algo vago e flutuante, distanciados da realidade, mas precisos e concretos, como a própria realidade. Constituem, com efeito, parte tão intrínseca de nossa vida e da sociedade humana quanto nossas ações e as instituições sociais, geralmente mais caducas e circunstanciais que os ideais humanos históricos...[1]

O autor nos mostra, ainda, que a história da educação e da pedagogia não depende somente dos que estão envolvidos na ação da escola. Os fatores históricos, culturais e sociais têm um grande peso. Entre eles, destaca os seguintes: situação histórica geral de cada povo e de cada época; o caráter da cultura - política ou religião, direito ou filosofia; a estrutura social; a orientação política; os ideais de educação condicionados à concepção do mundo e da vida; a concepção estritamente pedagógica; as reformas das autoridades oficiais; as modificações e os métodos da educação

Por isso, ao examinarmos o pensamento e a obra dos educadores, é de suma importância que levemos em conta o tempo e o espaço em que viveram, as influências que receberam e as que exercem até nossos dias. Com esta ótica estudamos os jesuítas, Locke e agora Rousseau.

Utilizando a lógica de Luzuriaga, para entender o pensamento educacional de Jean-Jacques Rousseau, poderíamos dizer que precisamos conhecer um pouco de sua história de vida.

Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra, na Suíça, em 28 de junho de 1712, e faleceu em Ermenonville, nordeste de Paris, França, em 2 de julho de 1778. Filho de pais protestantes, estima-se que o fato de sua mãe ter morrido poucos dias depois de seu nascimento, em conseqüência do parto, o tenha marcado desde criança. Quando adulto torna-se seguidor do catolicismo.

Ainda jovem chega a Paris e ganha a vida como professor de música. Nesse período, lê muito e começa a escrever. Uma crise de saúde o abate, e a sua descrição sugere o mal hoje conhecido como "síndrome do pânico". Em maio de 1740, foi para Lyon, tutorar, as crianças de Jean-Bonnot de Mably.[2] Em 1741, retorna a Paris e expõe na Academia sua Dissertation sur la musique moderne com seu sistema de notações musicais, sendo reprovado. Posteriormente, concluiu sua ópera Les Muses Galantes, então aplaudida por especialistas.

Entre os Enciclopedistas, cultiva amizade com Diderot e Jean Le Rond d'Alembert, quando ambos preparavam A Enciclopédia. Diderot propôs a Rousseau escrever os verbetes de música, o que ocorreu.

Seu círculo incluía também o abade Étienne Bonnot de Condillac, natural de Grenoble, adepto de John Locke; e também Henri Dietrich (1723-1789), o barão de Holbach, um ateu alemão muito rico que se estabeleceu em Paris para fazer guerra contra a crença em Deus. No início de 1745 Rousseau assumiu vida conjugal com Thérèse le Vasseur, com quem teve 5 filhos, os quais foram todos enviados para um orfanato.

Estimulado por Diderot, em 1749, participa de um concurso da Academia de Dijon com o o trabalho Discurso sobre as ciências e as artes, pelo qual ganhou o primeiro prêmio; sua publicação ao final do ano seguinte o tornou famoso.

No Discurso sobre as ciências e as artes, Rousseau articulou o tema fundamental que perpassa sua filosofia social: o conflito entre as sociedades modernas e a natureza humana, ressaltando o paradoxo da superioridade do estado selvagem, proclamando a "volta à natureza". Ao mesmo tempo, denuncia as artes e as ciências como corruptoras do homem.

A opereta Le Devin du village acabou por torná-lo conhecido em Paris. Após esse sucesso, na mesma época, porém com menor repercussão, escreve a peça Narcisse. A partir dela elabora um novo trabalho para concorrer na Academia de Dijon. O tema proposto pela Academia era a origem da desigualdade entre os homens. Nele, procura recriar na mente a imagem do homem natural, teorizando que da própria civilização vinham os males que afligiam o homem civilizado. Considera os homens iguais no estado natural, quando viviam isoladamente como selvagens, e a civilização é que se encarrega de introduzir a desigualdade. Embora sem o prêmio, o seu Discurso sobre a desigualdade entre os homens, em 1753, assegurou sua fama.

Em 1757, começa a escrever A Nova Heloísa, romance em que reúne no personagem principal seus amores; teve um contexto moral, filosófico, religioso e até econômico mais amplo do que havia concebido inicialmente; a obra é publicada em 1761.

Em 1758, rompe definitivamente com Diderot e os enciclopedistas.

D'Alembert, por instigação de Voltaire, no artigo Geneve da Enciclopédia, fazia críticas aos valores tradicionais e propunha que um teatro fosse instalado em Genebra para servir como centro de propaganda para as novas idéias filosóficas. Rousseau preparou uma réplica ao artigo, Lettre a d'Alembert sur les spectacles, publicada em 1758. Nela, Rousseau, fiel ao seu primeiro "Discurso", mostrou que o teatro clássico francês, de Molière a Voltaire, tinha sido prisioneiro da concepção aristocrática de vida social e cultural. Não expurgou as paixões maléficas e não purificou a moral. Ao contrário, levou à ociosidade e à corrupção, e o povo de Genebra deveria desconfiar dele se quisesse defender sua liberdade. Já no Prefácio desta carta, Rousseau avisava que a vida social e mundana era a fonte da maldade. Diderot considerou a carta uma deserção, uma traição, num momento em que Rousseau devia estar defendendo a Enciclopédia.

Em 1759, estava trabalhando nas obras Instituitions politiques, Contrato social e no Dictionnaire de musique. O Materialisme du sage tornou-se um longo devaneio sobre a educação e ganhou o título de Emílio ou da educação. A muitos pareceu que nessa obra ele estava tentando redimir-se de ter abandonado os filhos, ajudando outros pais a criar suas crianças adequadamente. Aconselhava-os a se desvencilhar de seus preconceitos sociais e seguir a natureza.

Em 1761, publica o Contrato social, um importante trabalho de filosofia política; em 1762 Emílio ou da educação. Estas obras seriam condenadas pelo Parlamento de Paris em junho do mesmo ano, como contrárias ao governo e à religião. Perseguido politicamente, fugiu para a Suíça. Em Genebra, seu livro O discurso sobre a desigualdade entre os homens foi queimado, e no dia 13 de junho foi expedida ordem de prisão, caso aparecesse por lá, nove dias depois de ter sido expedida em Paris, pelo arcebispo. Refugiou-se em Yverdum. No entanto, muitas pessoas, de todas as categorias, viajavam léguas para inquiri-lo sobre suas idéias.

No final de 1764 recebeu um panfleto anônimo, Le Sentiment des citoyens (O sentimento dos cidadãos), acusando-o de hipócrita, pai desnaturado e amigo ingrato. Foi escrito por Voltaire. Decidiu, então, escrever sua autobiografia - As Confissões de Jean-Jacques Rousseau.Recebeu ataques também dos camponeses, orientados por seus pastores. Era vaiado e agredido, com pedradas, na rua. David Hume,que com grande reputação na França, principalmente entre os enciclopedistas, devido a seus tratados de comércio e política, escreve a Rousseau, convidando-o para ir a Inglaterra e o oferecimento de todos os seus préstimos e amigos para que tal estadia lhe fosse agradável. Depois de dois anos, sua casa, em setembro de 1765, foi duramente apedrejada, devido à presença de Rousseau. Estava trabalhando no projeto de uma Constituição para a Córsega, pensando em refugiar-se lá. Retornou a Inglaterra em 1766.Hume obteve para ele uma residência chamada Wooton, na Inglaterra. Tão logo Rousseau chegou a Wooton, escreveu a Hume, agradecendo. Em pouco tempo, porém, o relacionamento entre eles alterou-se.

Em 1768, voltou para França e tomou o nome de Renou, escondendo-se no Castelo de Trye; em 1770, mudou para Paris disposto a defender-se. Reassumiu seu nome verdadeiro. No ano seguinte, ocupou-se então de um estudo que lhe foi solicitado pelos nacionalistas poloneses, sobre reforma das instituições, e escreveu Considerations sur le gouvernement de Pologne.

Em 1775, escreve Rousseau juge de Jean-Jacques. Em dezembro desse ano, quis colocar esse trabalho sobre a proteção de Deus, sobre o altar da Catedral de Notre-Dame, porém não pôde fazê-lo e escreveu o mais sereno e delicado de seus trabalhos, Les Reveries du promeneur solitaire (Devaneios de um caminhante solitário), dedicado ao seu tema predileto: a natureza e os sentimentos do homem por ela. Em maio de 1778, mudou-se para Ermenonville, onde morreu pouco mais de um mês depois. Seus restos mortais foram removidos para o Panteon em Paris, durante a Revolução Francesa.

Jean-Jacques Rousseau, um dos mais renomados pensadores europeus no século XVIII, gerou, a partir de suas obras, reformas políticas e educacionais, tornando-se, posteriormente, a base do Romantismo. Formou, com Montesquieu e os liberais ingleses, o grupo de brilhantes pensadores responsáveis pela ciência política moderna. Em filosofia da educação, enalteceu a educação natural, conforme um acordo livre entre o mestre e o aluno, levando assim o pensamento de Montaigne a uma reformulação que se tornou a diretriz das correntes pedagógicas nos séculos seguintes. Foi um dos filósofos da doutrina que ele mesmo chamou "materialismo dos sensatos", "teísmo", ou "religião civil". Lançou sua filosofia não só através de escritos filosóficos formais, mas também em romances, cartas, músicas e em sua autobiografia.

2. A importância da educação e da liberdade no pensamento de Rousseau

Por esta breve biografia percebemos que Jean-Jacques Rousseau foi um educador e filósofo dos mais considerados e influentes.

Rousseau inovou, combatendo as idéias vigentes em sua época, principalmente a de que a educação da criança deveria ser voltada para os interesses do adulto e da vida adulta. Neste sentido, introduziu a concepção de que a criança era um ser com características próprias, com suas idéias e interesses, não podendo ser vista como um adulto em miniatura. As crianças não têm os mesmos desejos que os homens; mas sujeitas como eles à sujidade que fere os sentidos, podem unicamente, em virtude dessa sujeição, receber as mesmas lições de decoro.[3]

Em Emílio afirma ainda que toda criança nasce boa, porém, quando o homem intervém em sua educação, a criança sente que aquele deve servi-la. [4] O homem não está determinado pela natureza a nenhuma escravidão, é autônomo e livre. Parece estar convicto de que o abuso de sua liberdade é responsabilidade da espécie humana, não do acaso.

O Emílio fala de um garoto que experimenta a simplicidade da vida do campo durante sua formação, conhecendo a vida dura de trabalhos manuais. Rousseau julgava ser necessário uma infância solitária para que o menino conhecesse os deveres de cidadão apenas na hora certa, não se desvirtuando na sociedade. Emílio só conhece o mestre, que busca incentivar as aptidões naturais do menino, e lhe dá uma educação sem frugalidades. Emílio só será encaminhado à sociedade na maturidade, quando conhecerá uma cidade grande.

Se o homem é ativo e livre, ele age por si mesmo; tudo o que faz livremente não entra no sistema ordenado da Providência e a esta não pode ser imputado. Ela não quer o mal que o homem faz, abusando da liberdade que ela lhe dá; mas ela não impede de fazê-lo, ou porque da parte de um ser tão fraco esse mal seja nulo a seus olhos, ou porque não o pôde impedir sem perturbar a liberdade dele e fez um mal maior degradando a natureza. Ela o quis livre, a fim de que fizesse, não o mal, mas o bem de vontade própria. Ela o pôs em condições de fazer esta escolha usando das faculdades com que o dotou; mas tal modo limitou-lhe as forças que o abuso da liberdade que lhe permite não pode perturbar a ordem geral.[5]

Com suas idéias, derrubou as concepções vigentes que pregavam ser a educação o processo pelo qual a criança passa a adquirir conhecimentos, atitudes e hábitos armazenados pela civilização, sem transformações.

Considerava cada fase da vida como dotada de características próprias. Tanto o homem como a sociedade se modificam, e a educação é elemento fundamental para a necessária adaptação a essas modificações. Se cada fase tem suas próprias características, a educação inicial não poderia mais ser considerada uma preparação para a vida, tal como concebida pelos educadores da época.

Rousseau afirmou que a educação não vem de fora, é a expressão livre da criança no seu contato com a natureza. Ao contrário da rígida disciplina e do excessivo uso da memória vigentes então, propôs serem trabalhados com a criança: o brinquedo, o esporte, a agricultura e o uso de instrumentos de variados ofícios, a linguagem, o canto, a aritmética e a geometria. Através dessas atividades a criança estaria medindo, contando, pesando; portanto, estariam sendo desenvolvidas atividades relacionadas à vida e aos seus interesses.

2. Os principais elementos da pedagogia de Rousseau

Os pressupostos básicos de Rousseau com respeito à educação eram a crença na bondade natural do homem, e a atribuição à civilização da responsabilidade pela origem do mal. Se o desenvolvimento adequado é estimulado, a bondade natural do indivíduo pode ser protegida da influência corruptora da sociedade.

Conseqüentemente, os objetivos da educação, para Rousseau, comportam dois aspectos: o desenvolvimento das potencialidades naturais da criança e o seu afastamento dos males sociais; para ele, o mestre deve educar o aluno baseado nas suas motivações naturais, pois logo que nos tornamos conscientes de nossas sensações, inclinamo-nos a procurar ou evitar os objetos que as produzem.

Essencialmente, o mestre deve educar o aluno para ser um homem, usando a estrutura provida pelo desenvolvimento natural do aluno, ao mesmo tempo mantendo em mente o contexto social no qual este eventualmente será membro. Isto só pode ser conseguido em um ambiente muito bem controlado.

Seu método de educação era o de retardar o crescimento intelectual: ele demandava a criança demonstrar seu próprio interesse em um assunto e fazer suas próprias perguntas; no estágio da puberdade, no entanto, a sensibilidade do jovem deveria ser educada. O adolescente aceitaria com confiança um contrato livre e recíproco de amizade com seu mestre, que poderia então ajudá-lo a descobrir as alegrias da religião e as dificuldade de lidar com a sociedade.

O ambiente em que o aluno vive devia ser isento de qualquer restrição física que não viesse do próprio aluno, e, depois que desenvolve cognitivamente, até os 15 anos, não deveria haver qualquer restrição moral em seu ambiente. O objetivo é que se desenvolva plenamente seu Eu natural, sendo óbvio que tal educação só seria possível se o aluno fosse totalmente isolado da sociedade e não tivesse contato social senão com seu mestre.

Ele só entraria na sociedade quando a tendência para a socialização surgisse como uma de suas necessidades naturais, o que aconteceria na adolescência, após o desenvolvimento da razão. Diz Rousseau: Ele antes tinha apenas sensações, agora ele julga. Então o aluno experimenta um desejo de companhia de outros e lhe será permitido desenvolver relacionamento pessoal. Ele vai estudar história e religião.

Finalmente vai entrar na sociedade educada de uma grande cidade. Agora poderá entender o que significa ser um cidadão. No Emílio, ele apresenta o cidadão ideal e os meios de treinar a criança para o Estado de acordo com a natureza, inclusive para um sentido de Deus.

A criança deve, portanto, ser criada em um ambiente rural, de modo que possa se desenvolver em continuidade com a natureza, mais que em oposição a ela. Permite-se que desenvolva os primeiros impulsos, desde que canalizados para um respeito genuíno para com as pessoas, respeito nascido do amor-próprio e não do orgulho.

Emílio, que laboriosamente adquiriu um senso de propriedade (nos moldes das idéias de John Locke) ao cultivar seu jardim, descobre a vida difícil de um trabalhador quando se torna aprendiz de carpinteiro.

Trazido à comunidade por uma tendência natural, ou simpatia para com aqueles ao seu redor, Emílio desenvolve um senso moral e uma necessidade no sentido da perfeição e do crescimento interior que lhe permite elevar-se acima das paixões e alcançar a virtude. Então, através de Sofia, descobre a natureza do amor. Ele tem de deixá-la, no entanto, para completar sua educação política, a qual requeria procurar através do mundo pelo país que melhor serviria à sua futura família.

Curiosamente, o único livro que se permite a Emílio na sua educação é Robinson Crusoe de Daniel Defoe, que mostra o caminho no qual o caráter amadurece em harmonia com a natureza, se a engenhosidade natural é permitida trabalhar desimpedida da corrupção da sociedade.

O método de Rousseau serviu de inspiração para Pestalozzi e outros métodos universais pedagógicos. No contexto de sua época, formulou princípios educacionais que permanecem até nossos dias, principalmente quando afirmava que a verdadeira finalidade da educação era ensinar a criança a viver e a aprender a exercer a liberdade.

A liberdade e a igualdade são os temas centrais do pensamento educacional e político de Jean-Jacques Rousseau. Ao gozo da liberdade ele confere, provavelmente, mais importância do que a qualquer outro aspecto da vida humana; para ele, renunciar à liberdade é renunciar à qualidade de homem, aos direitos da humanidade.[6] Parece ficar evidente que o sonho de construir uma sociedade livre e igualitária, com democracia direta e soberania popular, era seu projeto prioritário, só podendo ser realizado pela educação plena, nos moldes propostos em Emílio e Contrato social.

Para o autor, o homem nasce livre e está inicialmente isolado, independente, não associado com outros semelhantes, mas esse quadro de isolamento primitivo não precisa ser interpretado literalmente: apenas pretende deixar claro que hierarquia e subordinação, autoridade e controle são profundamente estranhos aos direitos originais dos seres humanos.

Cada indivíduo é na vida selvagem[7] seu próprio juiz e senhor, não existindo nenhum outro juiz ou senhor humano perante o qual tenha de apresentar contas. Neste estado, é absoluta a soberania da pessoa na condução de suas ações, sem prestar contas delas a quem quer que seja. Essa ilimitada soberania individual, segundo Jean-Jacques Rousseau, caracteriza o homem no estado de natureza pela sua liberdade individual, indicando que o indivíduo desfruta de livre-arbítrio para atuar ou não. No entanto, as limitações desta liberdade absoluta, por uma calamidade da natureza, forçam as pessoas a se juntar em associações materiais e civis, a fim de, reunindo suas forças e qualidades, superar os obstáculos da liberdade natural.

A questão da maldade se coloca quando surge o que chamou de liberdade moral quando o homem associa-se[8] ou a liberdade de todos. Esta impõe uma renúncia à liberdade individual, entendida como satisfação exclusiva de desejos para a construção da vontade geral.

De certa maneira a liberdade moral é uma liberdade diminuída, pois nesta é o homem quem cria o bem e o mal, quando comparada à liberdade individual, onde o mal não é imputado ao ser humano. No exercício da liberdade moral o homem está subordinado à exigência de acatar e respeitar o outro, mas esta obrigação moral não representa uma diminuição ou negação da liberdade discricionária do indivíduo, pois, ao respeitar este princípio, o homem reassume seu próprio caráter. Uma atitude livre não elimina a possibilidade de convivência com a outra, portanto, parece afirmar que não existem duas liberdades, mas duas atitudes.

A questão da liberdade é bastante complexa, supõe muito debate, mas uma possível interpretação é que se possa chegar a um procedimento decisório, de modo que se respeite a liberdade do indivíduo e de todos os que estão sujeitos na associação às regras resultantes da implementação desse procedimento. Por isso, nenhum procedimento decisório tem autoridade na associação comum dos homens sem o consentimento discricionário individual de todos para sua implementação.

Essa obrigação coletiva não autoriza a tirania nem o controle prepotente de uns sobre o outros, embora isso possa ocorrer se a soberania individual e absoluta for considerada como a única liberdade. Somente a aceitação da lei moral criada pelo humano, ou contrato entre os homens, é que realiza qualquer liberdade segura e proveitosa para o indivíduo - já que o homem não pode mais voltar a seu estado selvagem. Neste sentido, afirma Rousseau: aquele que se recusar a obedecer à vontade geral a tanto será constrangido por todo um corpo, o que não significa senão que o forçarão a ser livre.[9]

Essa imposição da liberdade àqueles que se recusaram a cumprir os desejos coletivos levou muitos inocentes à guilhotina ou aos paredões. Aqui está, certamente, toda a dificuldade do ser humano para tornar-se livre. Como aderir à vontade geral sem imposições, sem que ninguém force o homem a ser livre? A educação pode ser um caminho para enfrentar esta questão. Rousseau com certeza acreditava nisso.

A tirania, os desvios pela liberdade, o desrespeito às leis comuns são algumas conseqüências de vícios produzidos principalmente na infância, por uma formação educativa degenerada, que transforma a natureza dos homens e lhe tira a liberdade desde o nascimento até a morte.

Educar o ser humano é o único caminho para que possa atingir a liberdade. A educação deve aspirar não só a introduzir o saber para ações coletivas, mas a formar o coração, o espírito e a capacidade de julgamento. Educar para ele seria a aquisição de bons hábitos e disposições que devem ter prioridade sobre o conhecimento abstrato. A criança é mais bem ensinada para ser livre através de fábulas e histórias do que através de argumentos abstratos, racionais; deve ser conduzida pelo seu interesse, não forçada por lições frias a obedecer, por imposições. Estes procedimentos despertam na criança desagrado e resistência, que mais tarde a farão rejeitar as leis coletivas, já que toda sua educação lhe foi imposta.

O educando deve ser ensinado de tal maneira que o habilite a ser feliz; com mestres que são felizes, e isso, afirma Rousseau, consegue-se melhor aprendendo a moderar as paixões, em vez de ceder em tudo a uma criança.

A idéia central de seu pensamento educacional é a da educação negativa - entendida como o contrário da educação que visa controlar, dirigir, admoestar, moldar ou forçar a criança a todo o momento.

Deve-se, ao contrário, perceber que existe um curso naturalmente saudável e ordenado no desenvolvimento do corpo, raciocínio e sentimentos de uma criança - a educação da natureza pelos sentidos, e o papel do educador consiste em respeitar a integridade desse desenvolvimento, dar espaço e oportunidade para que ele ocorra em seu modo e tempo adequados, ajustando as lições da criança de forma que sua atenção seja atraída direta e indiretamente em conformidade com seu nível corrente de interesses e aptidões. Com essa pedagogia a criança quase não percebe que está sendo educada ou que há imposições do mundo, pensa que é tudo diversão e que está sendo ajudada a construir o que seus poderes e inclinações nascentes a teriam, de qualquer modo, estimulado a fazer. Neste sentido, dificilmente essa criança será um ditador.

No entanto, há um momento em que, embora fosse bom que tal instrução continuasse, ela não pode continuar sendo levada a efeito através do simples método que tem na natureza seu princípio. No final da adolescência, e início da idade adulta, a relação entre professor e aluno precisa ser restabelecida numa base voluntária; enquanto era criança, sua liberdade dependia do adulto; a partir da juventude, o saber e a autonomia precisam ser exercitados.

Nesse ponto, Rousseau inova de uma maneira fabulosa, descobrindo os estágios do conhecimento humano e os estudando no Emílio passo a passo, para que o homem se torne livre e cidadão, o que veremos agora de uma forma mais detalhada, nos pressupostos de sua pedagogia.

3. Os estágios da vida humana para a educação de Rousseau

No Emílio ou da Educação, Jean-Jacques Rousseau estipula os estágios de desenvolvimento da criança: No livro I, do nascimento aos dois anos de idade a valorização da infância e suas especificidades; no livro II de dois a doze anos engloba a grosso modo, o período que chama de idade da natureza; no livro III dos doze aos quinze anos, a idade da força ou energia vital; no livro IV dos quinze aos vinte anos, idade da inteligência, da razão e das paixões ou do segundo nascimento do homem; e finalmente o livro V, dos vinte aos vinte e cinco anos, a idade da educação política ou da sabedoria.[10]

Sem ser um rigoroso e esquemático padrão, ele serve como útil quadro de referência de quando, pela primeira vez na história, o homem foi estudado enquanto um ser que possui fases distintas de saber; idéia que Jean-Piaget aprofundará mais tarde, construindo toda sua teoria psicogenética.

O desenvolvimento interno de nossas faculdades e de nossos órgãos é a educação da natureza.[11] Esta é a fase que vai do nascimento até aos 12 anos. No primeiro e no segundo capítulo do Emílio, Rousseau nos dá detalhadamente um manual pedagógico para esta idade, onde a natureza é a grande educadora. Mostra como tudo aquilo que a natureza cria o homem degenera, inclusive o próprio ser humano:

Tudo está bem em saindo das mãos do autor das coisas, tudo degenera nas mãos do homem. Ele obriga uma terra a nutrir as produções de outra, uma árvore a dar frutos de outra; mistura e confunde climas, as estações; mutila seu cão, seu cavalo, seu escravo; transforma tudo, desfigura tudo; ama a disformidade, os monstros; não quer nada como fez a natureza, nem mesmo o homem; tem de ensiná-lo para si, como um cavalo de picadeiro; tem de moldá-lo a seu jeito como uma árvore de seu jardim.[12]

O homem é o único ser que tudo quer destruir para apropriar-se e acumular, mesmo sem ser uma contingência necessária à sua sobrevivência. Na infância, este sentimento de destruição já lhe é imputado pela sociedade, a criança não o possui naturalmente, mas logo que o homem passa a educá-la, não tardará em assimilar seus vícios.

Uma das características principais da criança, neste período, é sua extrema fraqueza e vulnerabilidade. Ela nasce frágil, num mundo que não a compreende, dependente para todas as necessidades; sua própria sobrevivência depende da ajuda daqueles que a rodeiam. Duas coisas são extremamente essenciais nesta fase, na opinião de Rousseau. Primeiro, o tratamento apropriado das vontades de uma criança, isto é, de suas tentativas de controle imperioso, que na verdade são o avesso da sua impotência e medo; ela deve ser preservada da crença de que ordem e obediência, dominação e subserviência são os termos com os quais os seres humanos se relacionam mutuamente, e de que o mundo é submetido a um controle arbitrário de seus desejos particulares.

Segundo, a criança não deve ser fisicamente constrangida (desde que sua segurança esteja assegurada) por ameaças ou exigências, pois ela verá nisso apenas tentativas para contrariá-la provocando ressentimento e a induzirndo-a à combatividade, à evasão e ao fingimento, deve ser dada a ela liberdade para viver, respirar, sentir livremente a sua própria energia, e descobrir por si mesma, lidando com o mundo material o alcance e os limites de seus poderes[13]. Gradualmente, adquirirá experiência em primeira mão de como funciona o mundo, e aprenderá como ele pode ser usado vantajosamente, trabalhando com ele, em vez de tentar submetê-lo ao seu comando. O meio ambiente, previsível, ordenado, insiste Jean-Jacques Rousseau, ajudará o progresso da criança nesse rumo, acalmando seus temores e a constelação de outros sentimentos, sobretudo sua convicção de que o mundo está perversamente decidido a contrariá-la.

Por volta dos 12 anos, uma criança terá adquirido a competência e a aptidão física básicas para enfrentar efetivamente o seu meio ambiente imediato. Inicia-se, então, um período em que existe alguma energia mental livre, por assim dizer, não dedicada exclusivamente à resolução de questões práticas. É a época de ampliar sua compreensão para além do que é imediato e local, para que aprenda algumas verdades e leis gerais acerca das coisas (educação das coisas), e da natureza que o envolve. A melhor maneira, sustenta Rousseau, não é pela aprendizagem livresca nem a instrução passiva. O bom educador deve, antes, criar ocasiões em que, a partir das exigências de uma situação prática, alguma lição mais ampla possa ser aprendida ou aplicada, para o benefício imediato. Por exemplo simulando ter-se perdido durante um passeio, o professor pode fazer com que o aluno aprenda a respeito de marcos divisórios, ângulos de direção e o significado do ângulo e do comprimento de sombras. Desse modo, é introduzido na cartografia, na geometria, na aritmética e nas ciências gerais. Mas a questão aqui não é que o aluno aprenda muitos fatos e teorias. em vez de apoiar-se na aprendizagem abstrata, ele adquirirá habilidades de aplicação geral, capacitando-o a filtrar, avaliar e dar um sentido ao que acontece à sua volta. dos

No livro III do Emílio Rousseau descreve detalhadamente o que seria para ele a idade da força ou energia vital: (dos 12 aos 15 anos),[14] ocorre um desequilíbrio entre o desenvolvimento das forças e as necessidades da criança. Parece ser o único momento da vida de uma criança onde ela não somente pode bastar-se a si mesma, como tem ainda mais força do que precisa.[15] Para manter o princípio da liberdade bem regrada, os limites passam a ser impostos pelo critério da utilidade.

Com essa idade mudam as características e as potencialidades da criança; Conseqüentemente, a ação do governante também deve mudar, conservando sempre o princípio básico: praticar uma educação que leve a criança a ter autonomia que se define pela liberdade. Este é o começo da idade da força - do sentimento vivido, elétrico, da energia apaixonada[16]

No livro IV do Emílio Rousseau nos ensina que aos 15 anos a criança chega à idade da Razão e das Paixões, quando se forma como ser amante e sensível e começa a examinar suas relações com o mundo e os homens. É a idade em que entra no mundo moral, e sobre isso nos fala Rousseau:

Eis o segundo nascimento de que falei; agora é que o homem nasce verdadeiramente para a vida e que nada de humano lhe é estranho. Até aqui nossos cuidados não passaram de jogos infantis; só agora adquirem importância real. Esta época em que terminam as educações comuns é precisamente aquela em que a nossa deve iniciar-se.[17]

É também no livro IV, que se dá igualmente a descrição de um Emílio que será submetido à sua primeira aula sobre religião do coração, proferida pelo vigário de Savóia. Rousseau reafirma a importância das paixões e repudia a idéia de que há paixões boas ou más em si mesmas; o que as torna más ou boas é o uso que se faz delas.

Agora, o adolescente, o jovem, sente os impulsos fortes da paixão, um interesse absorvente em tudo o que o cerca, sobretudo no modo como o vêem na sociedade, se o amam ou não. Jean-Jacques Rousseau chama isso de segundo nascimento da criança; o primeiro, o seu nascimento para a espécie, o segundo para o seu sexo. Essas mudanças púberes têm para Rousseau, uma origem especificamente sexual que faz das questões de amor e sexo uma preocupação obsessiva.

Esse cauteloso surto de intensos sentimentos em relação aos outros acarreta grandes problemas para o educador. Argumenta Jean-Jacques Rousseau que, em primeiro lugar, o fluxo de interesse sexual deve ser controlado; é preferível que o adolescente comece sendo orientado para possuir relações amigas e não paixões ou romances. Amigos, companheiros e concidadãos são preferíveis a parceiros (as) sexuais em intimidade erótica.

E prossegue, falando da finalidade do educador para ajudar uma criança a ter caracter nesta fase da vida do homem:

A finalidade do educador deve ser habilitá-lo a encontrar uma sólida base em que se sinta confiante, seguro, respeitado e capaz de sentir-se senhor de si, sem ter de recorrer à agressividade ou ao servilismo excessivos. A natureza dota o educador de paixões, especificamente a compaixão ou piedade, a qual também está presente no adolescente nessa época, e o educador pode usá-las para promover um desenvolvimento mais criativo em suas relações.[18]

O entendimento do que o autor chama piedade, difere de pena, parece estar mais próximo de solidariedade; trata-se de um sentimento puro que o homem e os animais possuem desde a criação, mas que no caso do homem, é corrompido pela ganância e o amor-próprio, à medida que descobre a sociedade corrompida e a ela se entrega.

Para Rousseau com a adolescência, aparece o homem completo, o homem com suas paixões, o homem que não se contenta em existir, mas que quer viver. Aqui se inicia a formação do homem moral.

Finalmente no capítulo V, a idade da sabedoria para a cidadania: assim, o autor parece pensar que a educação, que passa a envolver agora um amplo componente de autodidatismo, deveria continuar na idade da sabedoria (20-25 anos). O aluno, agora um jovem adulto, aprende sobre leis, sociedade, governo, e também a cortejar e obter uma parceira conjugal. Ele se tornou, finalmente, um membro plenamente qualificado, senhor de si e de seus atos, da sociedade adulta e cidadão de um Estado; através de sua própria virtude e conduta, o bem- estar da sociedade tem sua continuidade assegurada. É em relação a essas matérias que Emílio e seu preceptor devem renegociar as bases do seu relacionamento: Jean-Jacques pode continuar como tutor e guia de Emílio apenas com a permissão deste último. Nesses estágios finais da educação, o preceptor usa uma abordagem mais teórica - quando trata de lei e governo, por exemplo, mas a experiência concreta ainda é enfatizada. Emílio é incentivado a viajar para que não possua apenas meras informações e conhecimentos sobre outras situações, outras organizações políticas, outras formas de governo, mas as compreenda; durante seus namoros, por estar propenso a destruir-se através de paixões incontroláveis, seu preceptor, por vezes, encenará os encontros ou intervirá para evitar situações delicadas.

Todas estas propostas educacionais, ora intrigantes, ora divertidas, em seus detalhes, segundo Dent:

...conspiram para servir de propósito dominante de Jean-Jacques Rousseau: habilitar o ser humano a crescer como um todo, intacto, na posse de seus próprios poderes e possibilidades criativos, que ele usará para seu benefício pessoal e de outros. E, dado que ele é tão crítico das deformações e sofrimentos que a sociedade ordinariamente inflige às pessoas, Jean-Jacques Rousseau é obrigado a mostrar o que uma pessoa seria se, fiel à sua natureza, fosse criada de acordo com os princípios por ele descritos no ‘Emílio’. Do começo ao fim, o programa educacional esta a serviço desse propósito superior.[19]

Desta forma, as idéias de Jean-Jacques Rousseau parecem ter sido influentes na história e, em grande parte, benéficas; estamos de acordo com o comentarista quando nos faz concluir:

Que as crianças devem desfrutar de liberdade para poder avaliar por experiência própria, seus próprios poderes; que a instrução deve ser orientada de acordo com o nível delas e de modo a mobilizar seus interesses; que tarefas diferentes são apropriadas para diferentes idades; que habilidades e competências são mais valiosas e mais duradouras do que o conhecimento adquirido de cor, sem ser assimilado - tudo isso seria hoje considerado fruto do senso comum.[20]

Jean-Jacques Rousseau não teria, certamente, ficado feliz, porém, com a tendência de uma certa educação centrada na criança que lhe permite pensar que pode fazer tudo, ou com uma liberdade individual ilimitada, fazendo o que seus impulsos lhe ditem, pois ele acredita que este capricho admitido como lei, seria inimigo de um crescimento bem-sucedido.[21]

Em nossos dias, enfatiza-se a exigência de leituras para crianças, mas há que se atentar para o perigo da antecipação racional. Para Rousseau, crianças devem ser crianças, e tudo deve vir a seu tempo, ou em cada fase de desenvolvimento, sendo esta afirmação um ponto fundamental para entrelaçar as idéias básicas sobre o educando. Nela parece referir-se em primeiro lugar ao livre pensar, que se opõe ao ato de decorar conteúdos a partir de uma educação escolar sem sentidos.

A criança que lê não pensa, só lê; não se instrui, aprende palavras. Tornai vosso aluno atento aos fenômenos da natureza, muito em breve o tornareis curioso. Mas, para alimentar sua curiosidade, não vos apresseis nunca em satisfazê-la. Ponde os problemas ao seu alcance e deixai-o que os resolva. Que nada saiba, porque vós lho dissestes, e sim porque o compreendeu sozinho. Que ele não se avizinhe à ciência, que a invente. Se jamais substituirdes em seu espírito a autoridade à razão, ele não raciocinará mais; não será mais do que o joguete da opinião dos outros.[22]

Tanto na época de Rousseau quanto hoje, a realidade demonstra que continuamos exercitando na educação práticas moldadas no poder da autoridade, desde o nascimento da criança. Práticas que são empecilhos básicos para a liberdade.

Liberdade parece ser mais que um elemento pedagógico, implicando uma tomada de posição ideológica contra uma sociedade que oprime, que divide os homens entre opressores e oprimidos. Educar é praticá-la, construindo uma consciência crítica, capaz de gerar comportamentos e a ação libertadora da sociedade. Em Rousseau, só há uma possibilidade para que o homem realize sua libertação: a construção de uma sociedade moldada em um contrato, que garanta a liberdade de todos os indivíduos.

Outro ponto suscitado em sua pedagogia é a da curiosidade sobre os fenômenos, como vimos em nossa exposição. Rousseau faz tal afirmação quando propõe uma educação que faça referência a elementos concretos da natureza, e que coloque o educando em contato com os mesmos. A educação prescinde, para o autor, de elementos só teóricos ou só racionais.

...a aquisição de bons hábitos e disposições deve ter prioridade sobre o conhecimento abstrato. A criança é mais bem ensinada para ser livre através de fábulas e histórias do que através de argumentos abstratos, racionais; deve ser conduzida pelo seu interesse, não forçada por lições frias a obedecer, a imposições.[23]

Para Rousseau, a natureza dá ao homem liberdade individual, mas é insuficiente, pois o amor-próprio e seu individualismo geram no homem o egoísmo, a competição, a injustiça e a destruição da própria natureza. Diante disso, o homem tem que construir suas associações através de um Contrato social, para ordenar estas vontades individuais. Desta forma, o homem continuará livre, mas submetido à vontade geral (vontade coletiva), que será também a sua, e será soberana; desde que todos cumpram as normas determinadas por todos.

Como dentro do homem existe naturalmente a bondade, ele não abusará da liberdade se for educado para ser livre. Esta complexa questão fica mais evidente, em Rousseau, quando afirma:

Se o homem é ativo e livre, ele age por si mesmo; tudo o que faz livremente não entra no sistema ordenado da Providência e a esta não pode ser imputado. Ela não quer o mal que o homem faz, abusando da liberdade que ela lhe dá; mas ela não impede de fazê-lo, ou porque da parte de um ser tão fraco esse mal seja nulo a seus olhos, ou porque não o pôde impedir sem perturbar a liberdade dele e fez um mal maior degradando a natureza. Ela o quis livre, a fim de que fizesse, não o mal, mas o bem de vontade própria. Ela o pôs em condições de fazer esta escolha usando das faculdades com que o dotou; mas tal modo limitou-lhe as forças que o abuso da liberdade que lhe permite não pode perturbar a ordem geral.[24]

O mal ou a escravidão não são uma determinação da natureza. Rousseau prepara o Emílio para a tarefa de libertar-se do poder da autoridade; como a natureza não criou tal poder, podemos afirmar que a liberdade humana é uma exigência da natureza. Uma educação que recupere a bondade natural, respeitando as fases do desenvolvimento humano, torna-se para o autor exigência para a concretização de um ser liberto.

Pode-se agora tentar resumir as linhas mestras mais importantes do pensamento de Rousseau, que vão além de um pensamento sobre educação; sem seu entendimento não se pode compreender sua inovação pedagógica.

Rousseau é o filósofo iluminista precursor do romantismo do século XIX. Foi característico do Iluminismo o pensamento de que a sociedade havia pervertido o homem natural, o selvagem nobre que havia vivido harmoniosamente com a natureza, livre de egoísmo, cobiça, possessividade e ciúme. Este pensamento já está em Montaigne.

Em seu Discours sur l'origine et les fondements de l'inégalité parmi les hommes (1755), ele dá uma descrição hipotética do estado natural do homem, propondo que, apesar de desigualmente dotado pela natureza, os homens em uma dada época eram de fato iguais, viviam isolados uns dos outros e não estavam subordinados a ninguém; evitavam-se como fazem os animais selvagens. De acordo com Rousseau, cataclismos geológicos reuniram os homens para a "idade de ouro" descrita em vários mitos, a vida comunal primitiva na qual o homem aprendia o bem junto com o mal nos prazeres do amor, amizade, canções, e danças, e no sofrimento da inveja, ódio e guerra. A descoberta do ferro e do trigo iniciou o terceiro estágio da evolução humana, criando a necessidade da propriedade privada.

Esse aspecto é criticado principalmente por Voltaire, que diz: ninguém jamais pôs tanto engenho em querer nos converter em animais e que ler Rousseau faz nascer desejos de caminhar em quatro patas[25] mas o propósito de Rousseau é o de combater os abusos e não o de repudiar os mais altos valores humanos.

Sua teoria política é, sob vários aspectos, uma síntese de Hobbes e Locke. Foi o ferro e o trigo que civilizaram os homens e arruinaram a raça humana... Do cultivo da terra, sua divisão seguiu-se necessariamente... Quando as heranças cresceram em número e extensão, a ponto de cobrir toda a terra e de confrontarem umas com as outras, algumas tinham de crescer às custas de outras... A sociedade nascente deu lugar ao mais horrível estado de guerra. Posteriormente, Rousseau disse que esse estado de guerra forçou os proprietários de terra ricos a recorrer a um sistema de leis para proteger sua propriedade.

Rousseau parece deixar claro não ser possível ao homem retornar à primitiva igualdade, ao estado natural, mas, em um artigo encomendado por Diderot para a Enciclopédia, publicado separadamente em 1755, como Le Citoyen: Ou Discours sur l'economie politique, busca meios de minimizar as injustiças que resultam da desigualdade social. Recomendou três caminhos: primeiro, igualdade de direitos e deveres políticos, ou o respeito por uma vontade geral, de acordo com o qual a vontade particular dos ricos não desrespeite a liberdade ou a vida de ninguém; segundo, educação pública para todas as crianças, baseada na devoção pela pátria e na austeridade moral, de acordo com o modelo da antiga Esparta; terceiro, um sistema econômico e financeiro combinando os recursos da propriedade pública com taxas sobre as heranças.

Estão no pensamento de Rousseau aquelas linhas que serão logo a seguir características do movimento romântico que caracterizou a primeira metade do século XIX: A valorização dos sentimentos em detrimento da razão intelectual, e da natureza mais autêntica do homem, em contraposição ao artificialismo da vida civilizada. Sua influencia no movimento romântico e na nova pedagogia é incontestável.

NOTAS

[1] Lourenzo LUZURIAGA. História da educação e da pedagogia. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1987, p.13.

[2] Por intermédio de Mme. De Warens, 1740 Rousseau é convidado por Jean Bonnot de Mably para ser preceptor de seus filhos... Rousseau, um homem de bem, maltratado pela sorte, que se faz pedagogo por vocação e não por ambição... Montaigne com L’Instrucion des enfantes o influenciou no nível pedagógico. Retirado da introdução de Dorothée de Bruchard ao livro Projeto para educação do senhor de Sainte- Marie, de Jean Jacques ROUSSEAU, 1994, p.7.

[3] Jean Jacques ROUSSEAU. Emílio ou da educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992, p.245.

[4] Id., ibid., p.50.

[5] Id., ibid., p.235.

[6] Jean-Jacques ROUSSEAU. O Contrato social, p.170.

[7] A descrição deste tema está explicada detalhadamente no seu primeiro discurso, denominado Discurso sobre a origem e as desigualdades dos homens, pelo que ganhou o prêmio da Academia de Dijon na França. A partir deste fato Rousseau se tornou conhecido.

[8] N.J.H. DENT, Dicionário Rousseau, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, P.159.

[9] Jean-Jacques ROUSSEAU, apud. N.J.H. DENT. Dicionário Rousseau. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1996, p. 159.

[10] Frederick EBY. História da educação moderna. Porto Alegre: Ed. Globo, 1976, p.121.

[11] Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou da educação, p.11.

[12] Id., ibid., p.9.

[13] Id., ibid.

[14] As idades citadas não devem ser tomadas com exatidão; é a articulação das diferentes fases de desenvolvimento que é significativa. Nesta fase tem início o segundo nascimento, é o início da idade jovem, onde a razão passa a ser exercitada.

[15] Jean-Jacques ROUSSEAU, Émile ou de L’éducacion. Paris, Classiques Garnier, 1951, p. 182.

[16] N.J.H. DENT, Dicionário Rousseau, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p. 118.

[17] Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou da educação, p.234.

[18] N.J.H. DENT, Dicionário Rousseau, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996, p.,118

[19] N.J. H. DENT. Op. cit. p.119.

[20] Id., ibid., p.119.

[21] Id., ibid.

[22] Jean-Jacques ROUSSEAU. Emílio ou da educação, p.176.

[23] Id., ibid., p.11.

[24] Id., ibid., p. 325.

[25] Frederick EBY. História da educação moderna, p.277.